sábado, 6 de junho de 2015

Ali onde tudo é possível


Ali onde tudo é possível
Um equilíbrio de pé ante pé numa singeleza de voo de borboleta
Um córrego pelas linhas do eléctrico a desaguar no Tejo
Águas de levada, sonhos, ânsias, brisas
Mesmo mesmo mesmo em frente à Sé, por cima das pedras fenícias, gregas, romanas, mouras, pedras com pedacitos da pele de quem por lá andou,  ouvem-se ainda os gritos do povo a chamar a revolta. “Querem matar o Mestre! Querem matar o Mestre”
E o sol a girar, a girar, no milagre anual do Fernando de Bolhões
E o Cesário, o Verde
E tudo, mas mesmo tudo misturado no fado
Tudo a ir
A misturar-se com as águas do Bugio... com as naus e as caravelas e os veleiros de três mastros a zarparem para os Brasis que em Lisboa já se fala francês...
O Rei e a Carlota Joaquina e a resma de piolhos e de cortesãos empoeirados que foram com eles, mais a régia biblioteca que por lá ficou.
Imagino os molhos de sertão e de samba e de escravos negros, polidos a óleo de amendoim e a talhe de chicote, que a boa da Carlota não deve ter desmamado lá nos biombos da corte tropical...
Agora não...
Anda tudo acinzentado numa maleita que ninguém entende... em lugar de fuba, milho transgénico, em lugar do vinhinho da torna, água choca...
Uma tristeza sem fim, é o que é.
Tudo tristonho, de ventas afiveladas ao chão, os passos arrastados, as mãos escondidas nas algibeiras... volta e meia um pontapé numa pedra a enganar o tédio e pouco mais.
Pre-ci-sa-mos de u-ma re-vo-lu-ção!
Precisamos mesmo! Uns tiros, uns estalos, uns corpos a esmo, espalhados no Rossio, mais uns cadáveres do reviralho ali para as bandas de S. Bento e a coisa faz-se. Olá se faz...
Imagino as fragatas no Tejo, mais os submarinos, a bombardearem Belém com projécteis de bolo rei... e a artilharia da Ajuda a responder-lhes com pastéis de nata... depois da Revolução dos Cravos a calórica Revolução do Açúcar...
Seria uma festa!

Mas não, já nada disso é possível... agora só nos resta esperar... esperar e cantar o fado, o menor, claro está.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crianças...


Quando não existe presente, todas as crianças transportam no olhar o peso do passado e nós que os vemos, pensamos em que momento, em que encruzilhada do tempo, lhes roubamos o brilho.
Não sabemos, não saberemos nunca, resta-nos a certeza de um mundo perdido

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A Morte de Sócrates


O que resulta destas eleições em Espanha é a afirmação generalizada do descontentamento face a um sistema, que de representativo tem muito pouco.
Os partidos tradicionais (seja isso o que for) reagem ao seu fim prescrito nas urnas. De plenipotenciários, passaram a instituições de facto sujeitas a escrutínio e andam numa roda viva a recolher todas as bóias que impeçam o afogamento.
O medo apoderou-se dos seus quadros e, em poucos dias, passaram da arrogância à subserviência, da imposição à súplica.
Fico à espera da resposta que os recém eleitos darão nesta crise, que é sobretudo o fim do paradigma em que assentavam as relações de poder.
A ver vamos se alguma coisa restará de aproveitável nos escombros do séc. XX

sexta-feira, 13 de março de 2015

Dizem que é Integração


 A bela Maria, mãe dos gémeos e do pequeno Rogério, de mais duas meninas e um jovem surdo, vive com 380 euros /mês. Os 3 ou 4 cavalos ou mulas que tinha para vender foram apreendidos por ordem do ministério da agricultura porque não tinham documentos (condoeram-se com as suas lágrimas e deixaram lhe a mula branca que puxa a carroça). Recebeu hoje a decisão do tribunal de Elvas 210 euros de coima por acampar no olival das pias.
(fotografias de Pierre Gonord)

quarta-feira, 11 de março de 2015

PISCINAS? QUAIS PISCINAS?

Era uma vez a Piscina Municipal dos Olivais. Piscina Olímpica, a melhor do país.
A essa piscina iam todos os jovens dos Olivais e arredores, iam também crianças, porque existia, resguardada da dos adultos uma feita à sua medida, com balneários e sanitários à sua dimensão.
Toda a gente se orgulhava da Piscina dos Olivais. Quando alguém se referia à zona norte ou à zona sul do bairro, falava sempre das piscinas. A sul ou a norte, eram elas a referência.
Nem vou falar dos namoricos, nem das tardes no bar, nem do mini golfe, ou do campo de ténis, ou do recinto de futebol de cinco. Falo apenas das piscinas que foram abandonadas, propositadamente degradadas e anos depois entregues a uma empresa privada, que as adulterou, transformou em ginásios e em parques de estacionamento e quejandices afins.
Uma tristeza.

Soube agora, daí a razão deste parlapié, que o estacionamento publicitado como gratuito, vai passar a ser pago.
Quero saber se depois de nos roubarem as piscinas, vão também atulhar de carros (mais ainda) as ruas de quem habita nas redondezas?

Que não existam benefícios para os munícipes já é um hábito. Mas prejuízos? Mais ainda?

terça-feira, 10 de março de 2015

O Tarot de Cavaco.


Cavaco Silva é bem o produto do meio em que foi criado. Nasceu e cresceu no seio de uma família da pequena burguesia rural, num Algarve nada cosmopolita.
É o filho genuíno do Deus, Pátria, Família, do Estado Novo e nem a formação académica, nem o mundo que conheceu posteriormente, lhe abriram novos horizontes, ele não cresceu para trilhar os caminhos que a inteligência e o risco de inovação a ela associado comportam. Cavaco cresceu para subir na vida, tal como o seu pai o tinha feito, cresceu e formou-se para aumentar o pecúlio que lhe coube em sorte e para isso teve de estudar, porque nessa época o Algarve era o desterro.
O instrumento de Cavaco é a esperteza, não a inteligência, a sua força é o empenho oportunista que coloca nos seus actos. Ele não induz, antecipa apenas, as suas metas são concretas, o seu percurso, dolorosamente linear.
Não vejamos nele um homem de imagem reflectida, estudada ao pormenor, magnificamente representada como a de Mário Soares, magistral intérprete do Presidente/Rei. Cavaco apropriou-se do que lhe deram, e isso foi a imagem do homem terra a terra, realista e vertical, de contida timidez, com uma vontade férrea, alheio aos prazeres mundanos, a imagem de um homem do povo, de origens humildes e valores tradicionais, sem devaneios, sem outra aspiração que não seja cumprir abnegadamente o que dele se espera… o bom aluno.
Essa imagem pegou e deu os seus frutos, porque os portugueses foram formados nela, porque foi ela que durante anos a fio se vendeu nos manuais escolares, e nas fitas a preto e branco do nosso cinema, foi a imagem do futebol e do fado, do chapéu na mão, da modesta casinha, do jardim à beira mar plantado imune aos vícios da modernidade.
Cavaco foi a sopa no mel para todos os que abdicaram do seu destino, daqueles que cresceram no medo, dos crentes de que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, mas foi também a oportunidade ansiada por todos os que queriam um regresso ao passado. Ele percebeu isso e não se fez rogado, entregou-se de corpo e alma ao seu papel e durante uns tempos agradou a uns e a outros, aos senhores e aos servos.
Foi cumprindo o desígnio de uns e lucrando com isso e entrementes vendia ao povo a imagem de homem probo. Bastou-lhe não falar, não abrir sequer a boca, porque falando se comprometeria.

Agora fala e sua natureza emerge, porque sendo a sua carta igual à de muitos, o seu Tarot é avesso, é produto do contrário, Cavaco é o lado lunar, a imagem sem espelho, Cavaco é menos do que esperto. É tão-somente um produto do meio em que foi criado, a nação de Salazar…

segunda-feira, 1 de abril de 2013

cuidado com eles que nos vão tirar até a roupa


As coisas vão de mal a pior.
O capitalismo não é a solução, a economia mundial está nas mãos de predadores, coadjuvados por fanáticos irresponsáveis que não vislumbram mundo algum para além dos seus umbigos.
Quando um retorcido Scrooge alemão, que não por acaso é ministro das finanças, diz que os países do sul são movidos pela inveja, isso não significa de todo que os países do norte, são melhores, mais trabalhadores, mais responsáveis. Basta olharmos para as duas guerras mundiais, para sabermos que não é assim. Basta atentarmos nas sucessivas ajudas e outros tantos incumprimentos alemães, para aferirmos da inveja dos gregos, ou dos italianos e de tantos outros que viram os seus países devastados pelo poderio arrogante dos teutónicos.
O que eles entendem é que o seu lugar no mundo é outro e que todos os restantes existem apenas para os servir, custe o que custar.
É uma doença sem cura, o mal pode ser controlado, mas é recidivo e inevitavelmente ressurge, com os estragos que se conhecem.
O melhor é mesmo cortar o mal pela raiz.
Exigir deles o que eles exigem dos outros...

domingo, 31 de março de 2013

A Europa do Burocrata





“Onde fica a Europa?
Mas qual Europa? Pode especificar?
Humm... a Europa…
Mas há muitas Europas.   A do Euro, a do Sul, a do Norte, enfim, a que Europa se refere?
Já sei! Se calhar a esse milagre genético do multicefalismo…
Não é a essa Europa… mas olhe que é a melhor pista para chegarmos ao que pretende.
Diga-me a sua origem por favor.
Bissau? Mas onde é que isso fica?
África??
Bom isso é um problema, não é muçulmano pois não?
Ahhh, é muçulmano…
Então e a sua pele, que cor tem?
Claro que a pergunta faz sentido.
Sou um burocrata, meu caro senhor, sou cego!
Não o quero desapontar, mas parece-me bem que a Europa que pretende
não passa de uma quimera.
Tem mesmo a certeza?
Sim, claro que estou a pôr em causa o que me está a dizer. Não existe nenhuma Europa como a que descreve. Ou é um mistificador ou foi enganado por alguém que lhe quis vender um produto de contrafacção.
Bom, está certo, sinto que é um homem de bem e até consigo intuir que chegou a um ponto sem retorno. Não quero que fique de mãos a abanar a contemplar um sonho, vou ajudá-lo.
Sabe o meu amigo que eu possuo uma lancha?
É verdade, uma bela lancha com motor e tudo. Quem a utiliza é um parente meu, afastado, já que eu sendo cego não a posso conduzir, o que valha a verdade até me dá um certo jeito. Eh. Eh.
Bom, eu posso falar com esse meu parente e mediante uma módica quantia, ele transportá-lo-á até um local chamado Gibraltar, que fica na Europa pois claro. Não é bem o que pretende, mas o óptimo é inimigo do bom, como muito bem sabe…
… Dizes-me que a lancha foi ao fundo. Safou-se alguém?
Não? Melhor assim, submerso ninguém fala…
O que vamos fazer? Compramos outra lancha, claro.”
Acordei! Acordei! Acordei deste pesadelo.
Estremunhado, recamado de suor, entorpecido ainda do sonho mau…
Mas qual sonho? Qual pesadelo?
A verdade é que todos os anos morrem pessoas afogadas no Mediterrâneo, apenas porque julgam que deste lado, à sua espera, numa esquina qualquer das cidades grandes, se encontra o Eldorado.
Aquele Eldorado do Velho Continente, tolerante e aberto, o continente dos direitos, que reparte equitativamente os frutos do seu pomar da abundância.
Pois é, todos os anos morrem dezenas, centenas, milhares, pouco importa o número. Morrem pessoas, morrem sonhos, e também os sonhos daqueles que os viram partir, e sonhos nossos, já que nunca os veremos chegar, com a sua força, a sua vontade de vencer, com o contributo imenso e enriquecedor da sua diferença.
Estamos velhos nesta Europa, cansados de andar pelo mundo, régua e esquadro na mão a traçar os mapas da nossa conveniência.
Agora que retornamos a casa, ou a isso fomos forçados, fechamo-nos na nossa fortaleza de cristal, temerosos do mundo e da mudança, convencidos da nossa aparente riqueza e reinventamos um novo significado para a palavra autismo.
Interrogo-me.
Essa ideia fantástica de uma Europa sem fronteiras, unida por opção das gentes, na sua diversidade cultural, que é o nosso contributo, o nosso maior ganho,  terá razão de ser? Será consistente?
Ou é apenas uma versão revista da quimera do meu sonho?
Não iremos nós, os crédulos, embarcar numa lancha com destino incerto?
Os burocratas são cegos sim senhor, não nos querem ver, não nos podem ver, porque o rosto é a expressão da alma, e essa verdade é-lhes incómoda.
Por isso querem a Europa dos cidadãos, desse clube privado com cartão de acesso e vários níveis de integração; o cidadão platina, o cidadão “gold”, o cidadão comum que no seu desespero de viver grita e esbraceja e agarra-se a qualquer a qualquer solução. Porque a crise está aí há que tomar medidas, portanto toma lá apoios.
Eu quero a Europa das gentes, das pessoas que andam na rua e transpiram e têm cólicas ao fim do mês e têm os olhos abertos de espanto.
Espanto sim.
Porque o burocrata, além de cego é translúcido, só lhe adivinhamos os contornos, sabemos que está, mas não o identificamos, é o burocrata da crise de 2008 e pronto.
Como é translúcido às vezes cria uns émulos, que se misturam com as gentes e tentam, com ar liberal, vender ideias que de tão gastas serão quanto muito avós das ideias. Muitas pessoas confundem-se e compram-lhes o patuá, a crédito, sem lerem as palavras minúsculas do contrato.
É grande o logro em que caímos ao confiar na lengalenga dos burocratas.
Aqui na Europa, mal ou bem, ao longo dos milénios foi-se constituindo uma manta de culturas, que embora se expressem de distintas formas, ou melhor dizendo, se resolvam através de distintas fórmulas, têm uma matriz comum, Greco-latina, que se distancia de atavismos predeterminantes, como a matriz Semita, e confere ao Homem a liberdade de encaminhar o seu próprio destino, independentemente da vontade dos Deuses. A nossa superação está sempre para além do horizonte, por isso, as nossas metas vão aumentando, na justa medida do caminho que percorremos.
Isso é bom, levou-nos ao resto do mundo e, mesmo não querendo trazê-lo de volta, fomos forçados a tal porque saímos, porque fomos confrontados com realidades distintas, muitas delas insubmissas, que nos levaram a um relacionamento muito distante do Eurocentrismo que sempre pretendemos impor.
Mesmo quando presumivelmente “os outros” se aculturavam, tal não passava de ficção, pois a sua resistência, passiva, face ao poderio “tecnológico”, leia-se bélico, dos europeus, levava-os a moldar o seu modus vivendi ao que seria entendido como europeu, sem no entanto abdicarem das suas raízes.
Iniciou-se assim um processo que designo como a “síndrome do desalinho”.
Quando se inicia uma construção em altura, em determinado ponto do processo, há que escorar vigas que sustentarão toda a construção. Vamos então colocando rebites ou parafusos, o que quer que seja que as segure e nivele, mas se o segundo rebite estiver mal alinhado com o primeiro e os restantes forem sendo alinhados com o precedente e com a mesma margem de erro…
Inevitavelmente a construção colapsa e desaba. Podemos optar por mantê-la e impedir a sua queda através de múltiplos recursos, mais ou menos engenhosos, mas o erro persiste e o fim, será inevitavelmente o mesmo. A ruína.
Esse postulado é válido também nas relações que se foram estabelecendo ao longo dos séculos entre o “Velho Continente” e o resto do mundo, pequenos erros quase indecifráveis que se foram acumulando até ao ponto de ruptura. Mas mesmo depois do óbvio, em lugar de um recomeço viável, insistiu-se na manutenção de um status quo manifestamente inviável, de tal modo que hoje em dia se levantam as vozes de um lado e do outro do mediterrâneo sem que o entendimento se aviste.
O mesmo com as relações de poder dentro da própria Europa, ninguém sabe como esse escol (não foram eleitos) de burocratas cegos e apátridas, de rosto velado, inidentificáveis, chegaram ao poder e deslocaram o homem do centro de tudo, para uma posição totalmente absurda no meio de uma engrenagem trituradora, transmutando a sua identidade para um vazio absoluto reflectido num número qualquer de qualquer documento que só ao burocrata é útil.
Não podemos como Tântalo, sujeitar-nos ao suplício.
A resposta de tão óbvia, fica ao critério de cada um.


quinta-feira, 28 de março de 2013

O Baile


Chegou como um monge, sem séquito, com um ar quase tímido e depois disse que viveu fora um ano, para estudar, para se dedicar à família, para dar espaço e tempo aos que ficaram, porque não queria que a sua imagem se interpusesse, que o seu carisma interferisse, que a sua razão tolhesse os passos dos que ficaram, disse da sua frugalidade, da conta única no banco do Estado, dos empréstimos pagos e por pagar, indignou-se por dele dizerem, injustamente o que mafoma não disse do toucinho.
Vinha para uma entrevista, mas cedo percebeu que lucraria mais se essa entrevista se transformasse num debate. Foi o que fez, os seus interlocutores morderam o isco. A partir daí ficou senhor do palco, fez o que quis; transformou as críticas em cabalas, apresentou os seus números perante o desnorte dos funcionários incompetentes de um governo incompetente, desmascarou de uma penada o rasteirismo do presidente múmia.
Falou de educação e contrapôs os veementes conselhos à emigração dos jovens, dados pelo seu sucessor. Falou de austeridade e de investimento, falou de mistificações, de gastos, de créditos e réditos... falou do que quis, como e quando quis perante os atarantados entrevistadores que quiseram debater com ele.
Fez numa hora e picos, seguramente,  mais oposição que o seu sucessor na liderança do partido em dois anos.
Saiu como um poor lonesome cowboy a esfumar-se na noite e porque era dia mundial do teatro, foi para casa ver o "Baile" e rir-se, rir-se muito destes otários todos.
Et voilá.
Ahhh! ainda teve tempo para explicar que o curso é de filosofia política, o mesmo que ciência política, explicou, como se nós fossemos muito directores de informação da RTP...