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TEMPO



    TEMPO
                                              OU    
SUDÁRIO PARA UM FADISTA PRECOCEMENTE VIÚVO

         Já é noite e eu deslizo pela cidade como um lobo. Talvez a minha hora tenha chegado, ou talvez não. Mas isso que importa? Que importa a hora despida de todos os momentos?
         Algures, numa rua em repouso, alguém espera por mim no desconforto da incerteza, mas como eu posso chegar se não lhe cheiro o destino. Talvez por isso me limite a percorrer as ruas à espera de um acaso, do anúncio inesperado do momento, da chegada que de inevitável se transforma em porto, e a mim em marinheiro.
         Navego uma cidade adormecida e sou como o gajeiro de um barco a que chamam destino. Mas a minha voz recusa-se a anunciar o que a alma pede. Não quero reencontros, já me despi das memórias, as minhas gavetas comportam apenas recordações, coisas que nunca vivi, coisas que se esgotam no meu presente.
         Cruzo-me com outras pessoas, outros mundos, outras formas de olhar. São formas furtivas essas, que surgem na minha noite e logo desaparecem, antes que chegue a madrugada.
         De uma viela chegam sons, sons tristes de guitarras que se desafiam em gemidos e lágrimas e eu sigo prolongando o meu próprio fado, mas as recordações, essas continuam no carrossel das suas melopeias a marcar os destempos de um percurso que ficou para trás.
         São fantasmas insignificantes que foram projectados pelo tempo a proporções quase insuperáveis e a ferida, regada com sal, nunca cauteriza. É uma prisão de fuga impossível. A nossa própria fronteira.
         Eis-me então navegante desencantado, ou melhor, decantado pelo acolhimento de muitas castas, que poderiam até ser culturas, se nós neste atavismo henriquino não insistíssemos em tornar pequenas as coisas que são apenas suficientes.
         Resumindo. Não há nada entre mim e a vida. Nenhuma semente no ventre de uma mulher. Nada!
         Alguma árvore, algumas palavras a rasgarem um sofrimento qualquer. Pouca bagagem a lastrar o meu caminho.
         Sou um espaço de confluência, um mar, filho de muitos rios.
         Transporto uma janela alugada, é uma ponte para o mundo e é através dela que vejo a melancolia de braço dado com a liberdade, por vezes...
         Apercebo nos telhados um lenço branco que acena despedidas à minha juventude. É como se existissem memórias para além da memória, que me desligassem do peso das coisas e me transformassem num espectador de mim mesmo, a esmiuçar todas as gavetas que as recordações comportam. Todavia os meus olhos, perdidos em pormenores, revêem-se na mágoa do que ficou por fazer, e eu deixo-me ficar suspenso, como um relógio sem corda, até que a vida, na sua suprema nitidez, se manifeste de novo na minha pele e me devolva macerado à consistência do presente.
         O sol acaba de nascer. Uma luz rosada, ténue, esboça as pessoas que se cruzam e descruzam, na pressa de chegar...
         No café da esquina alguém desjejua à pressa, o cheiro dos pequenos-almoços invade a rua, envolve-a e chega até à minha janela, mas não se mistura comigo, nada se mistura comigo se eu não quiser.
         Revejo-me no Carmo, no meio da multidão festiva tu chegas e ofereces-me um cravo, sorrio, faço-te uma festa, tu olhas para o chão, é um momento, não dizemos nada, não se estragam momentos com palavras.
         De noite, em casa dos meus pais, fazemos amor pela primeira vez, às escondidas, em silêncio, sempre em silêncio, como duas sombras chinesas a contar a história da primeira noite em liberdade. Temos ambos dezassete anos em Abril.
         Primeiro conheci a tua pele, lentamente, o cheiro, o sabor, o tacto, os sentidos... aprendi-os contigo, todos!
         Tal como mulheres com sorrisos nos olhos, são sensualidades várias que despertam a minha alma de fazendeiro. Vou aprender-me e depois comunicar com todos eles. Transformar a minha cama numa vinha das mais variadas castas, metamorfosear-me em Baco, inventar uma nova linguagem, talvez recozer uma vela, por mais esfarrapada, e marear sem carta, levado ao sabor de uma paixão, qualquer que seja.
         Eis a tarde, no meio do bulício, pressinto três pós-esquerdistas, dinossauros de 68, três máscaras de desencanto, tal como eu, a esgrimirem a desilusão de quem não agarrou um momento, sequer, na ânsia de o querer viver.
         Como seríamos melhores se todas as memórias fossem fotográficas, bastar-nos-ia remexer no arquivo, percorre-lo fotograma a fotograma e chegaríamos lá, com atraso, mas compensado pela distância que só o tempo confere.
         Não me arrependo de nada neste meu fim de dia. Nesta hora de contemplação. Revejo-me nas pessoas apressadas, nos seus passos miudinhos de formigas, que apesar de si próprias, se movem, e se ganham nesse perpétuo movimento, como se parar fosse mesmo morrer.
         Na rua a azáfama da noite que está prestes. A corrida do regresso, do sempiterno regresso.
         Nada nos retinha na cidade, por isso partimos, sem bagagem, de olhos abertos ao mundo, transmutado de súbito numa estrada sem norte, como se tudo o que viesse fosse uma dádiva, e cada dádiva uma conquista. Não se tratou de chegar, nunca quisemos chegar.
         Agora aqui sentado junto a esta janela, olhando para além da rua, revejo-te numa visita fugaz, na eternidade de um momento irrepetível, como se tudo o que vivi contigo estivesse para lá da tangibilidade do que sinto como saudade.
         Mas tu já não és, e eu sou apenas o que de mim restou.
.        Na rua a madrugada. Uma chuva impregna o ar e a humidade penetra-me o corpo. Sinto frio. O fumo do cigarro dissipa-se, voluteando.
         A música, cristã, desnuda-se quase até à síncope, e eu, vagueio através dela em sonhos pagãos povoados de desejos e almas relapsas, que se penitenciam na circunstancialidade imposta pelas coisas da vida, e que unicamente a ela dizem respeito. Tudo o que ficou por fazer, tudo o que ficou por dizer, baila comigo nesta farândola de recordações. É este o meu sudário.
         Entretanto invade-me um turbilhão de ideias e eu sei que não são fruto da imaginação, são isso sim, filhas do pensamento, da necessidade que tenho de nunca parar.         
          Sei que ficciono tudo, mesmo a própria vida, mas isso não me incomoda. Antes de viver existe a possibilidade de não viver, ou de viver diferente, ou de desviver apenas.
         Sou o parente mais próximo de alguém que caminha unicamente porque sim. Grande lição essa de poder saber que só sabendo se pode hesitar...
         Hesitemos então, nem que por um instante. Ninguém pode viver na certeza, ninguém sem dúvida se consegue despir da dúvida.
         Talvez passe por aí esse sublime pretexto da condição humana. E eis-nos humanamente conscientes do fim, aspirando à imortalidade, subindo degrau a degrau a torre de babel. Mudos, despidos de tudo, despidos do pó das estrelas, até que a alma num sopro se dispa do corpo, e deslize por aí sem se perder nos caminhos traçados do mundo.
Dou por mim junto ao rio, na margem oposta à cidade. Uma melodia insinua-se e tento identificá-la, primeiro, depois atraído, sigo o seu perfume e dou comigo num beco de cais, à porta de uma tasca inusitada.
De dentro vem uma luz mortiça, avermelhada, e o som inconfundível de uma banda de blues.
Entro. De frente para a porta um balcão alto, de mármore rosa, domina toda a sala rectangular, preenchida por mesas de madeira de tampo quadrado, todas separadas, em torno delas, quatro cadeiras também de madeira. As paredes brancas, sujas do ar pesado da noite, estão parcialmente cobertas por quadros e fotografias de músicos famosos. A porta ladeada por duas janelas, é uma porta de vaivém feita de madeira pesada, pintada de verde.
Três músicos ao canto da sala tocam os blues que me atraíram, quase afagando os seus instrumentos, um velho contrabaixo, uma guitarra de doze cordas e um piano de parede.
O espaço está vazio, apenas os músicos o dono do bar e eu partilhamos o momento.
Peço uma aguardente, sento-me junto à banda e deixo-me levar pelos pensamentos…
Eu gosto muito de vocês, mas não pactuo com a vossa vontade.
Se agora, por exemplo, me pedirem para os levar a “viajar” no espaço, é evidente que não os levo.
“Merci beaucoup. Répond le garçon qui veut aller au bout du chagrin. Une fenaitre ouverte, une fenaitre eclairé”.
No fundo, bem no fundo, todos nos questionamos, todos temos esperanças estioladas na voragem da vida.
Marte estendido como uma toalha na praia, envolta em grãos de areia, milénio após milénio, com guerras esforçadas na alma e nas mãos romanas dos povos submersos na vontade dos Deuses.
Estultas conversas às portas do nada, com todos os buracos negros a sugar qualquer réstia de dignidade que possa sobejar das palavras ainda por dizer.
-Quer mais uma aguardente” ouço uma voz distante, saída do nada, a sacudir o meu torpor.
-Sim, por favor. Respondo sem olhar, entretanto os músicos pararam de tocar, mas eu ainda os ouço, ainda os tenho em mim, a soltarem os seus sons como farrapos de névoa. Nada me importa, eu não me importo.

















































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