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Mensagens

Os burros de Lázaro

 Torpes os filhos de Lázaro, do homem abdicado. Submisso Lázaro que tudo deixas por um sonho vão. Escutas os refluxos das vozes divinas que te caem do céu, chegas tarde oh incauto. Agora, apenas vives o presente, sabes tu que o futuro é sempre tarde de mais. Conforma-te! Abraça a lástima, o sibilino sorriso da misericórdia. O peixe esgarçado do infinito, feito fios sem fim. Essa contemplação fusiforme; de rosto emparedado. Atentai burros de Lázaro na lonjura do que ele já foi…

Cristãos na Palestina

Adel Sidarus Uma das preocupações do recente Sínodo dos bispos do Médio Oriente em Roma, era o êxodo em massa das populações cristãs dos vários países da região e a consequente diminuição do seu número, precisamente na região que viu nascer e se desenvolver a religião inspirada pela vida e palavra de Jesus Cristo. No Dia internacional da Palestina, cabe aqui falar dos cristãos da Terra Santa em particular. Em 1948, na véspera da proclamação unilateral da criação do Estado de Israel, os cristãos formavam 28% da população palestina. Hoje, numa população de quase sete milhões, eles não representam mais que 2 a 3%! Dez anos depois da data nefasta de 1948, 80% dos cristãos palestinos tinham já optado pelo exílio. Enquanto nos anos cinquenta, a população cristã de Belém se situava nos 2/3 do total, hoje já não perfaz mais de 1/3. Em Jerusalém, outrora pouco habitada por muçulmanos e judeus, mal se contabilizam hoje 12% de cristãos. Não queria hoje demorar-me sobre este fenómeno como t...

L'etat c'est moi

Escrevinhei esta crónica há já uns tempos... Continua actual, talvez mais actual do que nunca: Deus morreu, Marx morreu e, eu próprio não me sinto lá muito bem. É este o retrato do partido actualmente no poder. Aderente entusiasta da “real politic”, o partido liderado por José Sócrates é isso mesmo, um conglomerado de interesses, sem referências, condenado a governar à vista, dependente de lideranças conjunturais, forçado a reagir mais do que a determinar a sua própria agenda. Partido laico, que meteu o socialismo na gaveta e que por via disso, perdeu as referências ideológicas. Só assim se entende o percurso ziguezagueante das suas reformas; da educação à saúde, da justiça à reforma fiscal, passando pela administração pública, tudo no governo deste partido é fachada inconsistente, pastiche político, governação “a la carte” Manipulam-se dados estatísticos, distorcem-se verdades, sufoca-se o contraditório, recorre-se ao “Photoshop” e eis o país moderno, das energias renováveis, das ...

O mediterrâneo é um lago

Sempre foi. De um lado o destino, o determinismo semita que coloca o homem como espectador e vítima da sua própria história. Tudo acontece pela mão dos deuses. Do outro a vontade, o périplo humano dos gregos que entende o homem como fautor do seu caminho, independentemente da vontade dos deuses. É esta a nossa história nos últimos milhares de anos, um confronto sem síntese possível, feito de avanços e recuos e submissões impostas pelo lado ocasionalmente vencedor. E de tantos enlaces e desenlaces resultou esta nossa mediterrânica cultura, feita de heróis humanos e vencíveis, que por instantes, cósmicos instantes, se sobrepõem ao desalinho do caos e abrem novas portas com limiares ainda inultrapassados. Agora vivemos um momento assim, no mediterrâneo é a alma dos homens que se levanta e que grita não. Sem margens, sem sul nem norte, apenas homens, milhares de homens, milhões de homens saídos da matriz da nossa cultura. Sem elfos, nem valquírias, sem druidas nem fadas… Ulisses e Gilgam...

A liorna dos mânfios

Interrogo-me até que ponto esta encenação da democracia burguesa, que culmina com o dia de eleições e a respectiva romaria às urnas, é coisa útil nos tempos que correm? Na embalagem vem sempre o respectivo aviso: Recomenda-se o voto em propostas, não nas pessoas que as apresentam. Como se isso fosse provável, ou até mesmo possível. Num mundo construído sobre o imediato, em que a imagem é factor determinante, recomenda-se que a escolha se fundamente nas propostas apresentadas. Sugere-se à sociedade a suprema contradição de se negar a si mesma e na hora do escrutínio, abstrair-se da televisão, das novelas, do trabalho aturado das assessorias, para votar em consciência segundo o que rezam os manifestos que ninguém lê, os programas que ninguém conhece, as ideologias que ninguém interpreta. O candidato tal disse do seu oponente tal e tal, ao que o outro respondeu blá blá blá blá e blá blá. Dias depois tudo se esquece, as novidades são outras, constroem-se novos efémeros, que surgem em cat...

Palavras aos tropeções

Palavras aos tropeções, como se se tratassem numa voz feminina, perdida no desvario de uma canção romântica. Doces escarpas, rasgos luzentes de preto e nada de nadar, de navegante com braços remos, rectos e flexíveis como salgueiros do campo. Aldeia mesopotâmica, íngua exposta à curiosidade dos xatos. Pequenos cefalópodes de braços rapados, com as ventosas ululantes a saudar a ausência de ventre. Coisas singelas como Tortozendo torcendo-se de óbvios gelos no meio da serra. Kapas deitados de barriga por cima dos Bês, de costas prostradas no chão do abecedário. Sexo litúrgico expurgado da distante Niceia que já foi, ficando persistente nos gestos incautos. Desgarradas. Destravadas. Acupunctura em estado persistente a queimar o nervo dos mareantes. Ciática estática.