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Crónicas de Opinião


2010
Chegou o ano novo e com ele as esperanças renovadas, as inevitáveis promessas de que tudo será diferente, que os erros cometidos no passado não se repetirão.
A boa-fé impera nos espíritos ainda atordoados da catarse cada vez menos catártica que a fronteira do primeiro dia de Janeiro representa.
Bem prega Frei Tomás, e de facto, durante uns dias tudo corre pelo melhor, todas as decisões tomadas num momento de entusiasmo, enquanto se ingere a passa de uva ao som das doze badaladas, são cumpridas com a determinação dos audazes. Infelizmente é Sol de pouca dura e para os meados de Janeiro, ainda o ano é uma criança, já toda a gente se arrasta nessa apagada e vil tristeza de todos os dias.
Os calos do quotidiano são fundos e difíceis de eliminar. Está-nos na massa do sangue.
Apesar de tudo, seria bom que se desse início a um novo ciclo, seria mesmo desejável que o espírito solidário do Natal se aliasse à sanha empreendedora do Novo Ano e as coisas começassem por fim a acontecer.
Muito se tem debatido nos últimos tempos a remodelação do espaço físico da Acrópole. Coisa necessária e de decisão sempre polémica, já que, para lá da necessidade de mudar, que todos admitem, vem a forma, o modo como se intervém, e aí, como em tudo na vida, cada cabeça sua sentença, opine-se então e, chegada a hora avance-se.
Fica no ar a ideia, no entanto, que mudado o chapéu se muda a farpela e não é assim. Invade-me a imagem de uma sala de visitas, que só se usa quando chega alguém de fora, retiram-se à pressa os plásticos que cobrem os móveis, abrem-se as janelas para sair o bafio, ajeitam-se as flores de plástico no centro da mesa de apoio, e pronto, dá-se assim uma imagem que em nada corresponde à verdade.
A cidade não é estática nem compartimentada, pulsa de vida, mostra-se a partir do uso que lhe damos, da forma como a tratamos, se a sala de visitas não tem o cheiro do uso, não é uma sala de visitas, é um mausoléu, e mausoléus não foram feitos para ser habitados.
O tempo da crónica é escasso, mas prometo que voltarei a falar deste namoro com Évora, e não é uma promessa vã, acreditem.



A cultura da transparência e a transparência da cultura.
A democracia não existe sem investimento na cultura. Não é viável, porque é através dela que entendemos o outro. É através dela que integramos a noção de diferença, e é através da diferença que podemos afirmar os nossos valores. A cidadania não é um espaço em branco, vazio, unanimista; muito pelo contrário, é um espaço de debate, de contraditório. É através desse contínuo confronto de ideias que tomamos consciência do poder que detemos, que votamos, que delegamos o mando que é nosso, naqueles que se disponibilizam para gerir a coisa pública.
A noção de que não somos os servos, mas sim os senhores, a certeza de determos a chave do nosso destino colectivo, a firmeza de devermos mais do que podermos, pedir contas a quem entregamos provisoriamente o direito de nos representar, decorre da liberdade, igualdade, fraternidade, da revolução francesa, que colocou todos os homens no mesmo patamar.
Direitos iguais implicam iguais oportunidades de acesso à cultura, à possibilidade de lutar com as mesmas armas.
É esta na sua essência a transparência da cultura e é ela que nos impõe enquanto homens livres, a cultura da transparência.
É ela o fundamento da democracia.
Dito isto, pergunto porque motivo aqueles que escolhemos para nos representar na governação do nosso país, ocultaram a existência de uma agenda de privatizações até à divulgação do PEC, que sabiam ser no mínimo controversa e que, caso fosse sujeita a escrutínio público seria rejeitada pela maioria dos portugueses?
Porque motivo mentiram?
Mentiram por apego ao que o exercício do poder oferece, escamotearam a verdade, porque sabem que não governam um país de súbditos, sabem que conhecidas as suas intenções, não seriam certamente eleitos.
Cesteiro que faz um cesto, faz um cento. Por isso pergunto, se privatizam os CTT, se privatizam a REN, porque não se referem à água no PEC?
Não vão mexer na água?
Ou vão primeiro possibilitar que se atribua a distribuição em baixa a empresas que já a fazem em alta, para depois, daqui a um par de anos, quando tudo estiver a funcionar convenientemente, abrir a gestão dos recursos hídricos a empresas de capital exclusivamente privado?
É que a água é um monopólio natural, o acesso a ela, um direito consagrado.
Ninguém pode ficar privado de água.
Universalidade, Equidade, Qualidade, Sustentabilidade, não são palavras vãs.
Já agora gostaria de perguntar se o facto da Câmara Municipal ter começado finalmente a cobrar as dívidas referentes ao consumo de água e o concurso para admissão de novo pessoal qualificado aberto pela ACA, estarem a acontecer em simultâneo, é mera coincidência.
Só por uma questão de transparência.
Para que se saiba dia 1 de Janeiro deste ano a cidade de Paris remunicipalizou a distribuição em baixa.
Pergunto. Porque será?
Até para a semana.



Eu gosto muito do dinheiro, mas não é ele que me faz falta.
Faltam-me as coisas que ele pode pagar.
Comida na mesa, roupa no corpo, um tecto…
Não incomoda trabalhar, fazendo aquilo que não se gosta, se por via disso se conseguir ter  o que é preciso para viver, e já agora mais umas coisitas que nos façam felizes, que dêem algum sentido à vida.
Até acho que tudo o que é verdadeiramente importante não tem preço.
Vejo mesmo, com a minha percepção de raios X, o ridículo que se esconde por detrás de muitas máscaras de sucesso dito económico.
Mas que digo eu?
Ridículo?
Antes trágico, tragicomédia encenada no vazio de muitas vidas aparentemente felizes.
No princípio era a troca: quatro gansos por um porco.
Pouco prático; o melhor é atribuir valor às coisas, acabar com as trocas e atribuir valor simbólico às conchas, são tão bonitas as conchas, ou ao sal, ou ao ouro…
Porque não o Ouro.
Esperteza!
Houve logo uns mariolas a apropriar-se das minas, ficaram tão ocupados a pesar o ouro que extraíam, que tiveram que contratar alguém para a picareta…
Pagavam em sal ou em bronze, ou em géneros claro.
Veio a moeda, o papel-moeda e, agora, que os tempos são outros o plástico!!!!
O dinheiro virtual.
Que bom, que felicidade.
A bem dizer, não há dinheiro, atribui-se um valor ao cidadão, certificado pelas companhias creditárias.
Está o baile armado, ou melhor, armadilhado. Se antes se podia ir ao bolso e sacar de um molho de notas para mostrar como se era importante, agora vai-se ao bolso e saca-se de um cartão. A cor determina o estatuto económico do cidadão em causa, platina, ouro e por aí abaixo, o número de cartões também não é despiciendo.
Há um pequeno problema; os cartões são atribuídos pelos bancos, quem não tem conta, porque não quer, ou porque os ditos bancos não deixam, é excluído do sistema.
Na Índia eram chamados de intocáveis, no Ocidente são mais conhecidos por sem abrigo. Estes estorvos a uma sociedade de sucesso deixaram de existir, sem se ter de gastar um tostão na sua eliminação.
Como diria um comentador conhecido:
Então, os sem abrigo existem?
Não, não existem.
Mas existem sem abrigo?
Sim existem.
Os que vivem fora do sistema, assumem uma função específica, ao mesmo tempo de aviso (cuidado, não estás livre disto) e de consolo. (afinal de contas há outros pior do que eu)
Isto é bom, porque centra tudo em torno do quanto se tem ou ganha, e do que se pode adquirir com isso.
Seria lógico que a mera subsistência estivesse assegurada para todos, independentemente do lugar que ocupam na “escala social”, não é isso que acontece, mesmo muitos dos que têm emprego, não conseguem atingir o patamar de uma existência digna. Já outros independentemente do que produzem auferem vencimentos muito acima do expectável. Tanto maiores são essas vencimentos quanto aqueles que os ganham, trabalham em áreas meramente especulativas, que são precisamente aquelas que sustentam o sistema.
Na realidade, o que a maioria das pessoas pretende é a possibilidade de se realizarem, de cumprirem os seus sonhos, os seus objectivos.
Só que, vá-se lá saber porquê, esse desiderato em vez de depender dos próprios, depende da capacidade que se tem de ser funcional, de manter o actual paradigma que faz do intermediário o cimento da estrutura social.
Altere-se o paradigma, alterem-se as relações de poder existentes, e os desníveis existentes desvanecem-se. O salário dos “boys” não espanta, é directamente proporcional à sua utilidade para que tudo se mantenha na mesma.
São os escravos em comandita dos senhores sem rosto. Abdicam da dignidade por muitos pratos de lentilhas.
Embora só possam comer um de cada vez, senão cai mal. 




Alentejo
31551,2 Km2. (um terço do território nacional + ou -)
24% De densidade populacional. (Km2)
441604 Habitantes (grosso modo).
8 Deputados eleitos num total de 230.
São estes os números da descentralização, motivo bastante para que questionemos o caminho até aqui seguido.
A taxa de crescimento efectivo da população é de -0,51%, não se augura nada de bom, a manter-se o ritmo.
O que é que vamos fazer?
Apoiar o crescimento das Megacidades, incentivar o enriquecimento do litoral?
Contentarmo-nos com o TGV com paragem em todas as estações e um Aeroporto que ainda não é mas está quase a chegar, com pazadas de turistas e investidores e contentores de nano-micro-médias empresas e mirabolantes investimentos dos grandes grupos económicos, que finalmente começam a olhar para nós?
Tudo isto tutelado por Lisboa e por um poder central mais gordo e mais distante a cada dia que passa.
E os nossos putos?
Estudam, especializam-se e depois vão embora atrás do dinheiro e das oportunidades que nós não conseguimos gerar?
Será que os oito deputados terão força suficiente para impor os nossos direitos no Parlamento?
Ou não serão eles arrastados apesar da sua vontade, para outros debates, para outras lutas?
O que é que prova que uma administração regional nos traria mais encargos?
O que é que prova que uma administração regional não nos traria mais dividendos? Que não seria melhor para nós?
Tudo tem prós, tudo tem contras. Seria interessante debatermos antes do debate que se avizinha.
Para nosso bem.
Saudações!





O país está suspenso de uma dúvida existencial.
Será que o Primeiro-ministro tentou abusivamente usar do seu poder para controlar a comunicação social.
Existe liberdade de expressão em Portugal?
As pessoas podem expressar-se livremente, emitir as suas opiniões através da imprensa, através da rádio, da televisão?
Ou pelo contrário existe uma asfixia generalizada dos órgãos de comunicação?
Será que o partido socialista se apoderou de tal forma do aparelho de Estado que estende as suas metástases a todos os cantos deste rectângulo, reduzindo de forma criminosa o país a um preto e branco absoluto?
A justiça controlada, a Assembleia da República sufocada, a Comunicação Social manietada, a Presidência refém não se sabe do quê?
Sejamos francos, nada disso se passa, nem a questão é essa.
Que o Partido Socialista tenta controlar a Comunicação Social?
Sem dúvida.
Que se levantam questões éticas?
Com certeza.
Mas todos os governos o tentaram, de formas mais ou menos veladas todos os partidos que passaram pelo poder cederam a essa tentação.
A Justiça está mal?
Existem tentativas descaradas de a instrumentalizar?
Existem.
Mas os governos passam, os homens mudam, as instituições ficam.
Interessa aqui a questão política, não a judicial.
Os jornais clamam por liberdade, mas o que se tem visto, é a publicação de escutas, supostamente em segredo de justiça, o desprezo por decisões de tribunais que visam impedir a divulgação dessas mesmas escutas, e aqui não me pronuncio acerca da bondade da publicação, mas apenas ao facto de terem sido publicadas.
Um jornalista que grita a sua indignação por uma tentativa de silenciamento e que surge em todos os telejornais, aquando da edição de um livro, (pura coincidência) a receber o apoio de todas as figuras de Direita.
Sugestões encapotadas para que se demita o Primeiro-ministro e se crie um governo de iniciativa presidencial, quando o maior partido da oposição em vésperas de congresso, regista o maior número de candidatos à liderança por metro quadrado.
Um orçamento aprovado com a abstenção dos que mais se indignam com a alegada desonestidade do líder do governo.
A rejeição liminar da constituição de uma comissão de inquérito, preferindo uma comissão de ética, cujas conclusões na prática produzem apenas tiros de pólvora seca.
A questão é política, sem dúvida, e, mais uma vez o essencial fica por discutir. O desemprego, a saúde, a educação, as privatizações a eito e ao preço da uva mijona; o que verdadeiramente divide a sociedade portuguesa, é esse neo-liberalismo feroz que nega às pessoas o direito a uma existência digna. Essa insensibilidade social que põe os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais miseráveis.
Até para a semana.



A não-crónica.
Todas as semanas escrevo esta crónica em cima da hora, no limite do tempo, sempre na esperança que entretanto surja algum facto digno de comentário. Por vezes esse adiar até ao limite compensa, a maior parte das vezes nem tanto e acabo por comentar algo que se passou durante o transcorrer da semana.
Pede-se numa crónica de opinião um relato comentado, uma tomada de posição, uma chamada de atenção, uma fotografia de autor, assumidamente decorrente da visão particular, que lhe dá vida.
Hoje opto por uma não-crónica.
Poderia comentar a entrevista concedida pelo presidente da autarquia a um semanário regional, mas já muito foi dito acerca dessa entrevista, que, diga-se de passagem, nada acrescentou à clarificação acerca do que a meu ver, é fundamental para que saiamos, já não digo ilesos, mas inteiros, da situação complicada em que nos encontramos enquanto município.
Pareceu-me, para ser honesto, ser mais, um desesperado grito de solidão, do que um afirmar de vontade. Pareceu-me para ser simpático, mais uma justificação, do que uma afirmação clara de vontade e empenho em avançar com firmeza por um caminho consistente.
Recuso-me a atacar o homem por detrás do cargo, não porque seja isento de críticas, mas porque se o fizesse, estaria a dar espaço àqueles, que estando com ele, sustentando as suas opções, ratificando as suas decisões, sacudiriam à primeira oportunidade, talvez antes ainda das próximas eleições, a água do capote, negando qualquer cumplicidade, rejeitando qualquer participação no descalabro que se adivinha; para depois apresentarem exactamente as mesmas propostas, retocadas, afirmando alto e bom som a quem os quiser ouvir a sua diferença, a sua vontade em mudar, o seu empenho em finalmente levar a carta a Garcia.
Não quero isolar o homem daqueles que o rodeiam, porque isso seria, apesar de uma pretensa mudança, manter na sua essência, as coisas tal qual estão.
Poderia também comentar o mundial de futebol, a qualificação para os oitavos de final, a chuva da golos à Coreia do Norte, o pesadelo decibélico das vuvuzelas, enfim alinhar no finge que anda, ou então… Dizer que enquanto os futebóis acontecem, decorrem também mais cortes nos nossos já escassos rendimentos, maquinam-se novas medidas para expoliar os trabalhadores europeus dos direitos sociais que foram conquistando, à custa de tantas lutas, no séc. que passou.
Poderia sublinhar isso com a notícia de várias ilhas gregas postas à venda pelo respectivo governo, quando ainda no início do ano isso se afigurava impensável.
Mas hoje opto por uma não-crónica, e faço-o apenas para retratar o não-rosto de quem se esconde por trás destas medidas, o não-rosto do capital especulativo, o não-rosto das imensas fortunas, da desigualdade, da fome, da miséria que já chegou.
O não-rosto da falta de coragem para dizer basta! E pôr essa não gente a andar.
Até para a semana.

Os Anjos, os Santos e os pobres dos pecadores…
A Deus o Paraíso, ao Diabo o Inferno, já o Purgatório é pertença de Anjos e Santos.
O Paraíso fica no alto, o Inferno nas profundezas e o Purgatório no extremo ocidental da Europa.
Os “Purgatorieses” não têm a consciência de habitar um espaço de expiação, por isso e também pela vaga sensação de culpa, que por vezes os assalta, são cordatos e cooperantes, como convém.
E como é governado o Purgatório?
De forma simples e eficaz.
Em primeiro lugar, há que inculcar aos “Purgatorieses”, que são eles os senhores do seu próprio destino; organizam-se eleições para um parlamento, de onde emerge um governo, que é expressão dos resultados dessas mesmas eleições. Só que o líder desse governo, tendo aparentemente resultado da vontade expressa dos “Porgaturieses”, não passa de mera encenação.
Quem determina a liderança são os Anjos e os Santos.
De que forma?
Existem duas congregações, a AIP (Anjos Influentes no Purgatório) e a CCP (Congregação que Comanda os Santos do Purgatório).
Dessas congregações fazem parte nomes sonantes, quer dos santos, como Santo Américo, padroeiro dos corticeiros, ou S. Belmiro Modelar, quer dos Anjos, como o anjo Francisco (o anjo Balsâmico) por exemplo.
Ambas integram uma comissão paritária o CE, (Conselho Empresarial) liderada alternadamente pelo Santo ou Anjo mais velhos. Alameda Santo (o seu nome indica o caminho para todos os santos) e Anjo Correia, (o seu nome significa o perpétuo movimento dos anjos num sentido comum) são actualmente os líderes em funções.
É o CE que designa quem será o seu testa de ferro na chefia do governo; actualmente, é um pecador da confiança de Alameda Santo que ocupa o cargo, José o protector das causas ocultas.
É bom que se diga que até determinada altura exerceu o seu mandato na perfeição; assegurou e expandiu os interesses dos Santos e dos Anjos, mas, cometeu um erro capital; na sua soberba, deixou que fosse descoberta a teia de mentiras que sustenta o cargo, por isso falhou.
Cabe-lhe agora preparar o caminho para o seu sucessor, designado por Anjo Correia; Pedro, o anjo dos passos de coelho.
Parece que nesta última missão José se está a sair muito bem, a eleição de Pedro como novo líder do Purgatório está a correr de feição.
Como vêem há muitos casos em que é a ficção que ultrapassa a realidade.
Todos nós sabemos que quer os Anjos quer os Santos são devotos do bem comum e que a sua meta é tão só a salvação dos pecadores.
Até para a semana.





  

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