Encontrei o marxista não-praticante. Ponha-lhe aspas, quem quiser. Por respeito do marxismo, eu lhe denomino de marxistianista. Pois, o homem. Cara gatafunhada, parecia ter tomado bicarbonato de ódio.
E era comigo, motivo das minhas crónicas. Quem faz uma crónica acrescenta uma tónica, isso ele sabia. Contudo, eu precisava de ser mais directo, de escrita bem pontiaguda.
O mundo, adiantava ele, é um assunto gravíssimo, não tolerando ambivalentias. E sentenciava: há que ser mais contundente. Expliquei-me, eu que de contundentição nem tenho escola. Mas ele, militante, mil e tanto. Ou já eu não alvejava o inimigo de classe, a interna burguesia? Ou considerava eu que a luta de classes, sempre em fase aguda, era uma questão decadente? Ora, decadente, não é a pessoa que tem dez dentes, perguntava eu.
Mia Couto - Cronicando- O secreto namoro de Deolinda
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